Setembro começou bem. Depois do passeio até o Cabo da Roca eu decidi que, se possível, faria um passeio destes por semana. O Gonças (Ma Fyn Bach) escreveu no “blog” um relato de sua ida até Tomar, usando parte do Caminho de Santiago. Bom, explico o que é este caminho. Santiago de Compostela é uma cidade em Espanha onde está (assim dizem, ou melhor diz a lenda em Caminho Português) os restos mortais do discípulo de Jesus chamado São Tiago Maior (irmão de São João, filho de Zebedeu). Já na idade média a cidade virou local de peregrinação e vários são os caminhos que levam até lá. De Lisboa, mais precisamente da Sé em Lisboa, começa um dos caminhos até Santiago de Compostela, conhecido como Caminho Português Lisboa – Coimbra – Porto. Ele foi balizado por uma viagem feita pelo clérigo João Baptista Canfalonieri em 1594, acompanhado do Patriarca de Jerusalém Fábio Biondo de Montalto. Como uma das viagens que quero fazer é o Caminho até Santiago, morando eu em Lisboa, vou começar por este. Inclusive já fotografei todas as setas amarelas (uma das formas de sinalizar o caminho) dentro de Lisboa e perdi o rasto (trilha) no Parque das nações. Pois bem, o Gonças as achou (as setas) já na foz do rio Trancão e foi por elas até Fátima (na verdade o caminho foi adaptado para utilizar o caminho Lisboa – Fátima, sinalizado por setas azuis).
Então comecei a primeira semana de Setembro a organizar um passeio que utilizaria parte da viagem que o Gonças realizou e andaria entre 100 a 120km. Na quarta-feira (03/09) comprei alguns mantimentos e me preparei para sair na quinta-feira cedo. Quinta-feira amanhece com chuva. Então cancelei o passeio e de acordo com a previsão deixei tudo pronto para o dia seguinte. Na sexta-feira acordei cedo e olhei o tempo. Ainda encoberto e com nuvens de chuva. Liguei o computador para ver a previsão do tempo. Ainda marcava chuva para o período, mas como o dia de sol acabou por antecipar (na previsão anterior estava para domingo e na sexta-feira já constava para sábado) e a previsão de chuva era de pouca chuva para o dia, decidi que iria mesmo com o tempo nublado. Tomei o pequeno-almoço (café da manhã), arrumei todas as coisas na mochila e coloquei-me a pedalar. Minha ideia era sair de casa em direcção a Algés, seguir pela Av. Brasília e as ruas a beira do Tejo até o Parque das Nações, foz do rio Trancão e seguir as setas até completar uns 50 ou 60km, a depender do tempo gasto até o primeiro. Aí voltar para casa.
Bom este era o que tinha planeado (planejado). O que não sabia era que meu passeio seria somente de 7km. Isso mesmo, já em Algés encontrei um pouco de chuvisco, mas como eu via que era localizado, continuei. Depois de passar pelo Museu da electricidade o chuvisco engrossou um pouco, mas era visível que logo acabaria. Continuei e estava a pedalar, no plano e sem muita pressa, por volta dos 27km/h. O trânsito estava tranquilo com pouco movimento, o que não é muito usual para o horário (por volta das 8:40h de sexta-feira) e aproximava-me da ponte 25 de Abril e Alcântara Mar. Para quem conhece, sabe que a Av. Brasília é cortada pelos carris do comboio (trilhos de trem), bem onde começam os restaurantes na Doca de Santo Amaro. Já passei por lá várias vezes, mas sempre com tempo seco. Sei que com o piso molhado, o aço dos carris (trilhos) fica muito escorregadio mas jamais imaginei que aconteceria o que sucedeu. Só para detalhar, os carris atravessam a Av. em um semi-arco que para quem trafega no sentido Belém – Cais do Sodré e próximo ao passeio (caso de um ciclista) está em um ângulo entre 25 a 30 graus com a trajectória do tráfego. Péssimo para quem anda em duas rodas, mas o atenuante é que não existe nenhum desnível para o alcatrão (asfalto), pelo menos não onde passei. Carril e alcatrão estão no mesmo nível então eu jamais pensaria que minha roda pudesse escorregar no aço do carril, ainda mais se pensarmos que ele não tem mais que 15cm de largura e desta largura quase metade é vazio (o carril forma uma espécie de U). Mas foi exactamente o que aconteceu. Mal a roda dianteira da bicicleta tocou o primeiro carril, ela simplesmente deixou o movimento que estava a fazer (avançando) e escorregou para a esquerda com uma violência que me deixou completamente sem acção. A bicicleta me abandona para seguir a esquerda e eu vejo-me sem bicicleta, no ar e com o chão a se aproximar muito rápido. Consigo estender minha mão direita e ela quem toca o solo primeiro. O impacto é enorme, vejo que meu rosto é o próximo e consigo encolher a cabeça quando coloco o queixo de encontro ao peito (a posição em que pedalava era oposta, a cabeça fica para trás) e então o capacete bate no chão. Ao mesmo tempo minha pantorrilha esquerda toca em algo, pelo menos assim penso eu, provavelmente o banco da bicicleta e ajuda no movimento de rolar. Acabo então por rolar sobre o ombro direito e paro depois de estar de bruços mais uma vez e com os braços estendidos a frente do corpo. Vejo no meu lado direito o meio-fio do passeio e sento ali sem levantar-me. Vejo a bicicleta logo a minha frente não mais que um metro para o meio da Av. e logo para alguém e pergunta se estava bem. Respondo que por enquanto sim. Olho para o trânsito e vejo que estão a chegar outros carros, inclusive um autocarro aproximava-se já a sinalizar a mudança de faixa, pois eu estava a bloquear a faixa onde ele iria passar. Levantei, fui até a bicicleta e retirei-a do meio da Av., levei-a para o passeio e comecei a verificar os estragos. Não na bicicleta, em mim. A começar pelas pernas. Levantei a perna esquerda da calça e constatei que minha pantorrilha havia crescido, parecia de halterofilista. O joelho direito doía, mas a calça não estava rasgada, pensei então que estava só batido. O quadril do lado direito também doía, mas a calça também estava intacta no ponto. Já no braço direito próximo ao cotovelo, um edema havia se formado e alguns raspados sangravam. Por fim minha mão esquerda estava com alguns raspados nas costas da mão (feitos pelo relógio) o polegar a sangrar bem ao lado da unha e em minha mão direita os maiores estragos. A palma (bem atrás perto do punho) tinha dois rasgões, um perto do polegar e outro já quase no punho mais para fora da palma da mão, dois dedos bem inchados e vários esfolados nas costas da mão. Ainda sem entender muito o que estava por acontecer vi que um dos restaurantes estava aberto (na parte de trás), com pessoas a abastecer a despensa. Então pedi para entrar e assim conseguir lavar as mãos e o braço (pelo menos o que podia ali). Perguntaram-me se não queria que chamassem o Inem (serviço de socorro por cá), o que de momento recusei. Lavei-me e me preparava para ir até o hospital mais próximo (dali o Egas) mas ainda estava zonzo e com algum mal-estar e sem conseguir andar direito (pelas dores nas pernas). Sentei-me um pouco e então pedi que chamassem o Inem (pedi água, joguei a toalha ou qualquer outra alegoria no tema). Não sei se demoraram ou não, sei que quando chegaram fui atendido por duas moças e perguntaram se eu queria ir até o hospital. Sim vamos. Antes tinha pedido para que guardassem a minha bicicleta, o que gratamente reconheço que fizeram.
Vamos encurtar um pouco a história. Fui atendido no hospital, radiografado e constataram que não havia partido nenhum osso. Segundo a médica que me atendeu estava apenas bem amassado e teria dores por um bom tempo. Do hospital tomei um autocarro até Alcântara e busquei a bicicleta. Só ai fui vistoriá-la. Não sofreu quase nada, só o travão (freio) esquerdo que estava com a ponta raspada e um pouco torta e o trocador traseiro raspado e mais nada. Além de me derrubar ficou em melhor estado que eu. Bom mas tinha que voltar para casa e dali foram 7km de volta, 4 a andar a pé e 3 sobre a bicicleta, sem saber qual doía menos. Mas tudo bem. Pelo menos agora (9/9) eu já estou a andar de bicicleta meio devagar ainda pois descubro novas dores a cada volta, mas já bem melhor.
Agora vem as reflexões.
Primeiro a mais rápida, a comparação com a última queda (aquela narrada aqui Balanço (no sentido de exame escrupuloso)). Como escrevi, a velocidade que me encontrava era maior, mas tive tempo para reagir e atenuar um pouco a queda. E mais tinha um objectivo específico no dia. Estava a ir para o trabalho que dependia muito de mim. Então mesmo com dores e marcas pelo corpo, subi na bicicleta e continuei o que tinha que fazer. Fui para o trabalho, antes passei por uma farmácia e comprei remédio para dores e para a limpeza dos ferimentos. Trabalhei e só pela hora do almoço que encontrei-me com a minha família (que em caso de necessidade poderia me auxiliar). Nesta segunda queda, saia para um passeio, que para mim tinha acabado ali. Apesar de ter feito o que pude, o susto da queda foi bem maior e o meu objectivo para o dia estava terminado. E ainda, estou só em Lisboa no momento, não teria ninguém para auxiliar-me caso preciso. O que quero dizer com isso? Minha responsabilidade aqui é muito maior, principalmente junto aqueles que estão longe. Então tenho que cuidar bem de mim, para que não preocupe aqueles que estão longe. A isso chamo de consideração e responsabilidade. Fui para o hospital.
Segundo e a mais subjectiva. Apesar do que ocorreu ter tido consequências duras e doridas (o mesmo que doloridas) nem na primeira queda nem na segunda deixei de subir na bicicleta e colocar-me ao pedal. Exactamente, logo após (lógico que só se for possível) voltei a andar de bicicleta. A queda não me impediu de fazer o que gosto. Não penso ser a bicicleta mais perigosa porque cai. Penso sim em tomar mais cuidado com o carril em dia de chuva. Não fiquei parado a me perguntar por que eu. Por que eu cai outra vez? Cai porque uso a bicicleta, se não a usasse não cairia. E aí está outra verdade. Se não fizermos, se não tentarmos, não teremos resultado algum, nem bom nem ruim. Eu prefiro correr o risco, tentar, fazer e ter resultados. Pois se não o fizermos não vivemos. Vamos passar pela vida e ter medo de viver. O medo de falhar, o medo de cair só consegue uma coisa, a nossa própria paralisia. Cair ou falhar faz parte da vida tanto quanto ter sucesso. Eu quero mais é viver e andar de bicicleta.
E vocês escolhem o quê?

6 comentários:
Hahahaha...bem que você comentou nossa conicidência, eu aqui do outro lado do Atlântico e você aé e dois no chão!!! Fazer o que não é? O Que importa mesmo é não perder de jeito nenhum a vontade de pedalar...Sabe que apesar do seu tombo fiquei morrendo de vontade de fazer esse passeio! Quem sabe um dia não tomo coragem e pego um avião para pedalar com vocês...
Bjs
Bom, ainda bem que vc. se preocupa com quem se preocupa com vc.No mais se a dor aumentar, compressas de agua quente. Gelo tinha de ser na hora, mas, zonzo nao ia dar para lembrar, nao eh. Aqui soh temos de ficar rezando.Abs. Seu pai.
Este comentário é do Gonças. Não consegui colocá-lo aqui de outra forma. Mas vai lá, o importante é a mensagem ...
"BEM Fábio....tinha passado por aí fazia prái uns 15 minutos! Ali levanto sempre um pouco a roda da frente para não ter azar...experência adquirida após uma queda num carril quando ainda era míudo !!
Espero que melhores rápido! Esse caminho tem que ficar reconhcido ;o).
Gonças "
Companheiro,
que situação tão confrangedora, não se pode dizer que foi apenas um susto mas ainda bem que as consequências não foram as mais graves. Diariamente tenho que lidar com as linhas dos Elétricos o que é bastante desagradável. Talvez por isso mesmo não despreze alguns cuidados, assim ando sempre de capacete e estou pensando em fazer um seguro.
Continue forte na sua convicção e desfaça qualquer assombro. Abraço e rápidas melhoras.
Ainda não tinha comentado neste blog. Gosto do tom pessoal e de reflexão dos textos. E é muito bom ver que a bicicleta permite esta partilha lusófona entre os vários continentes. Desde Moçambique, Um abraço,
Hugo
http://mozambiquebikeculture.blogspot.com/
Viva Fabio
Já passei por uma queda dessas em pleno centro de Algés.
Agora sempre que vejo carris, não facilito, cruzo-os a 90º.
HCardoso
www.bikeXcapes.com
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